Peso é Peso

Uma voz forte e marcante do solista. Jovens músicos de alta patente com anos de estrada nas rodas de samba e de choro. Arranjos no formato e na cadência do samba antigo e uma profusão de sambas inéditos e desconhecidos de uma constelação de bambas do passado. Isto é Peso é Peso, álbum de estreia de Tuco & Batalhão de Sambistas, gravado ao vivo em 2010, no Centro Cultural São Paulo.

Fernando Pellegrino, o Tuco, fez escola em importantes agremiações paulistanas de preservação do samba como o Morro das Pedras e o Terreiro Grande, e tem em seu canto o timbre de “gogós” do passado como o portelense Ventura e o mangueirense Jamelão. 

Pesquisador, fez do disco um documento da cultura popular brasileira com músicas inéditas de nomes como Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Nelson Cavaquinho e Manacéa, além de Monarco e Nelson Sargento, que interpretam seus sambas no disco.

Também participa do álbum, na pesquisa, no coro e solando em duas faixas, Cristina Buarque. Ao lado dela, está o Batalhão de Sambistas, músicos que, com capricho, fazem do andamento do samba aquele que se fazia na Portela antiga, cada vez mais deixada de lado pelos defensores da “modernidade”. Estes fiéis arranjos à musicalidade do passado foram desenhados em conjunto por Tuco e pelo violonista João Camarero. Um disco com tantos sambas inéditos de grandes compositores da Portela, Mangueira, Salgueiro, Império Serrano e Estácio de Sá, executados com respeito e admiração pelo conjunto, já nasce histórico.

Texto: André Carvalho


Ouça "Meu Batalhão" (Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves), faixa de abertura do CD:



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Peso é Peso: Tuco e Batalhão de Sambistas

Por Marília Trindade Barbosa

Nascido e criado no Centro do Rio de Janeiro, em 1901, Paulo da Portela, antes dos 20 anos já chegou ao subúrbio como líder: "Chama o 'seu' Paulo que ele resolve!". Mulato alto, bem falante, sem grandes estudos mas com o dom da palavra, muito elegante - só andava de terno, gravata de laço e sapato engraxado - lustrador por profissão, compositor por talento, Paulo Benjamim de Oliveira resolveu fazer de Oswaldo Cruz e adjacências o bairro do coração, um bom lugar de se viver, como era a velha Praça Onze.

Compositor respeitado, mestre de harmonia, dançarino de primeira linha, era um verdadeiro lorde. Com Rufino e Caetano, em 1926, fundou a Portela e fez do bairro a capital do samba nos subúrbios. Paulo da Portela atuou na política, tornou-se amigo de prefeito, escritores, intelectuais, virou membro da diretoria de diversas agremiações. Mas morreu cedo, em 1949.

Seus companheiros, entretanto, continuaram a cultuar o som que nasceu, se espalhou nos morros da cidade e de cristalizou com ele: o som da Velha Guarda da Portela. Armando Santos, Alvaiade, Manacéa, Chico Santana, Casquinha, Alberto Lonato, Argemiro, Monarco, as pastoras Doca e Eunice e os músicos Osmar do Cavaco, Olímpio da Cuíca, Jorge do Violão. Cabelinho no Surdo e o muito jovem Mauro Diniz, formaram, sob a direção do primeiro, a Velha Guarda Show.

Em 1970, Paulinho da Viola produziu o emblemático LP "Portela Passado de Glória" que mostrou com música a verdade musical daquela gente. Para entender, basta ouvi-los: pura poesia nas letras simples, reveladoras do cotidiano daquelas talentosas criaturas suburbanas, o amor proibido, a mulher leviana, o malandro traído. E, sobretudo, o amor ensandecido pela Portela.

À exceção de Paulo, por volta de 1977 conheci praticamente todos, e sempre que um ia embora, nosso universo ficava mais pobre. Por isso, com o passar dos anos, cada vez ficava mais difícil ouvir o som da Velha Guarda da Portela, apesar do talento e dos esforços do incansável Monarco.

Até que o povo lá de cima resolveu, pelas mãos de Cristina Buarque (benza Deus, guerreira!) mandar o Tuco (nome "de guerra" de Fernando Pellegrino Rodrigues Luzirão), para que o som puro, límpido e verdadeiro das velhas guardas do samba permancesse na terra, perto de nós. Os mestres se foram, mas Tuco preserva, com luxos de ourivesaria a obra deles e das velhas guardas. Porque o samba de terreiro, de ritmo cadenciado, praticamente foi-se perdendo no tempo, desde o instante em que virou samba de quadra e, depois, MPB.

A pureza das letras, reveladoras do cotidiano dos "bambas" e suas "criaturas", do machismo daqueles para quem sempre a mulher é "leviana", a "perdida", que lhes manchava o nome... Eles, não! Desde que dessem casa e comida à companheira, achavam lícito cortejar todas as outras mulheres da comunidade. E as patroas que ficassem de bico calado! Era o famoso "samba de falar mal de mulher".

As melodias, sempre cheias de volteios e tons bem altos, eram compostas para fazerem bonito quando entoadas pelo coro de pastoras.

O minucioso e sério trabalho de Tuco é garimpo, é "pura arqueologia", já que as músicas apresentadas são quase todas inéditas. E como é que esse jovem de São Paulo foi mergulhar, de lupa em punho, no repertório daqueles antigos senhores dos subúrbios do Rio de Janeiro e de lá retirar maravilhas que parecem ilustrar verso de Cartola: "misturada entre as pedras preciosas do mundo, com um simples olhar a você não confundo"? Tuco vai fundo, há 15 anos é um "rato" dos arquivos das rádios, de José Ramos Tinhorão, do IMS, buscando audios raros de 78 Rotações em sebos, da memória dos senhores da Velha Guarda da Portela e de outros como eu e Cristina, não tão velhas, mas perdidamente apaixonadas pelo assunto. Fala, Tuco:

"A maioria dos sambas é inédita e já é um trabalho que faço há muito tempo... Quando conheci a Cristina ganhei muitas coisas que ela me passou e, a partir daí, fui ouvindo e aprendendo para então colocá-las nas rodas de samba que eu fazia com meu antigo pessoal do Morro das Pedras - um projeto onde homenageamos muitos desses autores desconhecidos."

Ouvindo os sambas com atenção, reconhecemos o som da Portela, bem diferente doda Mangueira, do Salgueiro, do Império e do Estácio. Cada um com sua sonoridade, mesmo quando o formato escolhido é o mesmo, um solista, coro de pastores(as) e acompanhamento de cavaco, violão e percussão. Coisa de DNA.

Destacam-se do grupo dos sambas (inéditos ou pouco conhecidos, na maioria), a marcha do mestre Paulo ("Aí vem a primavera" - uma beleza! - enriquecida com uma citação de uma das primeiras marchas da "Vai como pode") e o maxixe "Quem eu deixar não quero mais", de Mano Edgar do Estácio, Tuco, ao gravar pela primeira vez, neste CD, o nome de Edgar, deve tê-lo feito sorrir lá do céu.

A Portela deita e rola no repertório escolhido, com mestre Paulo, na marcha já citada e no samba "Não se deve contar glórias", Mestre Monarco, com uma belíssima participação ao vivo, Antonio Caetano, também fundador da Portela, Picolino, Chico Santana, Alberto Lonato, Lincoln, os irmãos Andrade - Manacéa, Mijinha e Aniceto da Portela, além de Chatim e Ernani Alvarenga.

A turma da Mangueira também está muito bem representada, por Cartola, Nelson Sargento, Marreta, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e o grande injustiçado Zé Ramos.

O Estácio comparece com os pioneiros Bide, Edgar, Licurgo, Batista, Ismael Silva, Nilton Bastos e o polêmico "compositor" Chico Alves.

Noel Rosa de Oliveira representa com dignidade o Salgueiro, o mesmo acontecendo com Silas de Oliveira e Antenor Bexiga, que mostra o saudoso primeiro samba de terreiro do Império Serrano "O branco é paz".

Sinceramente, o que o meu querido Tuco está fazendo é reeditar, 40 anos depois, um CD tão importante como o já citado "Portela Passado de Glória". Com um repertório muito mais parecido ao que Paulo da Portela escolheria, acho eu. Explico: o nosso mestre Tinhorão sempre comparou assim Cartola e Paulo:

"Cartola é o Cartola DA MANGUEIRA."
"Paulo da Portela é o Paulo "DE TODAS AS ESCOLAS". A diferença está na diversidade!

Para terminar, não posso deixar de falar na voz do Tuco. A gente ouve e leva um susto. Parece a voz dos velhos puxadores/versadores, do tempo em que os desfiles não possuíam aparelhos para amplificar o som. Gente como Ventura, Alcides, João da Gente, Jamelão. Um misto de amor, beleza e um travo de angústia, até na hora da dança e do som carnavalesco, na linha do inesquecível Aniceto do Império Serrano.

A garra do Batalhão de Sambistas (enriquecida pela participação de Rafael, Fernando e Janderson), faz lembrar um batalhão mesmo, pronto para a guerra. Mas uma guerra em que o som não assusta, o som seduz. Além do auxílio luxuoso das coristas, Francineth, Keila Santos - e "Dona" Cristina!

Obrigado Tuco e Batalhão de Sambistas.

Obrigado Monarco, Nelson Sargento e Cristina Buarque de Holanda, por suas participações ao vivo. Vocês, entidades da música de raiz, permitem que se diga que esse é um CD para se ouvir ajoelhado.

E tenho dito!

Marília Trindade Barbosa é biógrafa de Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira


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